35 ANOS DO ESTUDO SISTEMATIZADO DA DOUTRINA ESPÍRITA (ESDE)

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35 ANOS DO ESTUDO SISTEMATIZADO DA DOUTRINA ESPÍRITA (ESDE)

Por Telma Maria Santos Machado – 1

” Esclarece José Herculano Pires no seu excepcional livro Introdução à Filosofia Espírita:

A Teoria Espírita do Conhecimento nos levou da simples sensação até a captação da realidade espiritual. O Espiritismo, como síntese de todo o progresso espiritual da Humanidade, repete em seu desenvolvimento o processo filogenético do conhecer. O Espiritismo aparece, assim, como um novo ser da família do conhecimento. A maneira das crianças que repetem em sua vida intra-uterina o processo da evolução animal, o Espiritismo reinicia a descoberta do mundo no campo fenomênico através da sensação e da percepção, passando pelo desenvolvimento racional para atingir o plano metafísico da fé. Mas a fé espírita apresenta-se como raciocinada e portanto proveniente do raciocínio. É uma filha da razão, e não obstante tem como pai o sentimento2.”

 

O conhecimento espírita tem sentido finalístico, o que deve se traduzir, no mínimo, em esforço de se proceder à autotransformação, segundo se entende da assertiva de Kardec constante em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XVII, item 4: “reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral, e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações”.

Sabe-se, ademais, que a aquisição do conhecimento é objeto de especulação filosófica, havendo inclusive uma área da Filosofia que cuida desse aspecto: a epistemologia. Por óbvio que a profundidade do tema não cabe neste artigo, mas uma rápida alusão à questão da possibilidade do conhecimento na visão kantiana é útil para se entender melhor a natureza do estudo sistematizado proposto pelo Codificador, conforme o livro Obras Póstumas.

Pois bem, Immanuel Kant responde à questão de como é possível o conhecimento afirmando o papel constitutivo de mundo pelo sujeito transcendental, ou seja, o sujeito possuidor das condições de possibilidade da experiência, isso equivalendo a uma resposta do seguinte teor: “o conhecimento é possível porque o homem possui faculdades que o tornam possível”, com o que, o eminente filósofo passa a investigar a razão e seus limites, ao invés de investigar como deve ser o mundo para que se possa conhecê-lo, segundo havia feito a filosofia até então3.

Na lição de Kardec, “um curso regular de Espiritismo seria professado com o fim de desenvolver os princípios da ciência e difundir o gosto pelos estudos sérios […]. Considero esse curso como de natureza a exercer capital influência sobre o futuro do Espiritismo e sobre suas consequências”. (Obras Póstumas, Projeto 1868). Nitidamente se

Sendo a Doutrina dos Espíritos fixada no tripé Ciência-Filosofia-Religião (exatamente nessa ordem, segundo tão bem explica Herculano Pires na obra já citada), o estudo espírita tem o condão de levar a respostas desde sempre buscadas pela humanidade; respostas essas que inelutavelmente conduzem ao entendimento da existência de Uma Inteligência Suprema e Causa Primeira de todas as coisas, a que denominamos de Deus por nos faltar um vocábulo que melhor expresse Sua perfeição. Afinal, como disse São Boaventura (1217/18-1274), “para que serve uma filosofia que não torne mais evidente a presença de Deus no mundo e não leve a cabo a aspiração do homem ao conhecimento de Deus?”4.

4 REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Vol. 2, p. 257.

5 ALVES, Castro. O Livro e a América.

Os três livros que compõem o Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita além de serem uma consistente forma de adquirir conhecimento espírita básico, dão uma ideia de sistema das Obras Básicas, trazem obras clássicas e subsidiárias para dialogar com as mesmas, bem assim indicam fontes diversas de leituras aptas a ampliar a reflexão sobre os temas estudados.

As Federativas do Brasil não poderiam deixar de abraçar essa proposta de estudo que visa a possibilitar que a difusão da Doutrina Espírita ocorra de modo seguro, dentro dos vieses pedagógico e metodológico adequados. É nisso que todos os que integram as Federativas acreditam e por essa causa trabalham, investindo também em outros tipos de estudos que complementam a formação de um trabalhador espírita.

A FEB e os idealizadores do ESDE merecem reconhecimento pela implantação e empenho na propagação do estudo sistematizado, e nós, que integramos a Federação Espírita do Estado de Sergipe, valemo-nos dos versos de Castro Alves para expressar esse reconhecimento de empenho bem-sucedido:

Por isso na impaciência

Desta sede de saber,

Como as aves do deserto

As almas buscam beber…

Oh! Bendito o que semeia

Livros… livros à mão cheia…

E manda o povo pensar!

O livro caindo n’alma

É germe – que faz a palma.

É chuva – que faz o mar

 

Não obstante o muito que foi feito, temos a exata noção de que o trabalho prossegue e que o congraçamento de todas as regiões com a FEB é a estrada axial que pode levar todos ao patamar almejado: seres esclarecidos que possam “voar” até Deus com as asas isomórficas do amor e da sabedoria.


In:Revista Reformador
1 – Coordenadora da Área de Estudos Doutrinários da Federação Espírita do Estado de Sergipe
2 PIRES, José Herculano. Introdução à Filosofia Espírita. 1ª edição. Paideia, 1983, p. 19.
3 https://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/kant—teoria-do-conhecimento-a-sintese-entre-racionalismo-e-empirismo.htm

 

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